terça-feira, 1 de setembro de 2015

Iniciação ao tacacá: um conto

             Da janela do avião, a anunciação do que estava por vir gritava pelo tapete verde-escuro quase ininterrupto formado por arvores centenárias de copas infinitas. A rede orgânica era intervalada apenas por uma sucuri aquática majestosamente curvilínea: o Rio Pará, que foi trançado seu espaço por meio da floresta ao longo de milhares de anos. O aroma herbáceo e o calor úmido me invadiram tão logo pisei para fora do avião. Era fato: minha bússola de pesquisadora havia me tirado dos pampas para me aventurar na Amazônia, a minha última fronteira do sabor.            
            Nas ruas de Belém, as alamedas formadas por antigas mangueiras continuavam a colorir a cidade em tons esverdeados. A monotonia do verde era quebrada por casas amarelas, azuis, vermelhas e pelo colorido das fitinhas da lembrança do Círio amarradas 
nas imediações da Igreja de Nossa de Nazaré em busca do alcance de graças . 


Chegando no hotel, percebi que o calor não era só na temperatura, mas também no trato às pessoas: no simpático hotel-pousada familiar Marajoara, os donos me acolheram como filha.

            Era quase 17h quando fui dar meus primeiros passos pelas cidade e a movimentação das tacacazeiras para iniciar seus trabalhos era quase ritual. Os banquinhos dispostos na frente da Kombi já esperavam os clientes que já viravam a esquina. - “Há que se ter uma confiança danada naquela que faz o tucupi...”, disse-me um cliente que esperava na fila. -“...se não for bem feito, o suco da mandioca brava pode ser letal”.     
                A julgar pela fila e pela fama do Tacacá da Dona Maria, a confiança era de sobra. Quando tirei os óculos e pedi meu tacacá, a filha de Dona Maria, que assumiu o carrinho após a morte de sua mãe, me disse: “com esses olhos você não deve ser daqui. E se não é daqui deve saber o que é e nem como se come tacacá”. Mal sabia ela que, apesar de gaúcha, me criei em Brasília e muitos dos meus domingos foram regados a tacacá na Feira da Torre (até contrabando para de tucupi para o RS eu já fiz). Mas a deixei falar. Falar do seu ofício familiar. Falar da sua vida. Falar do sangue amarelo que corre nas veias dos paraenses desde seus tempos mais remotos.        

“Primeiro ele era feito pelos índios. Plantavam a roça da mandioca brava e depois colhiam. A brava é aquela amarela, sabe? Depois eles ralavam e colocavam no tipiti. Esticavam, extraiam seu suco e deixavam descansar até a goma descer e o líquido amarelo ficar brilhoso. Deixavam o líquido fermentar. Depois tinha que ferver, pra evaporar o veneno. É um ácido na verdade. Cianídrico. Mas não mata também, esse povo é exagerado! Aí foi passando. De geração em geração. Aprendi com a minha mãe. Agora a gente não faz mais com tipiti. Só rala e espreme no pano. Para fazer o tacacá é só temperar o tucipi: a gente coloca alho, chicória paraense, pimenta de cheiro e alfavaca. O jambu e o camarão seco a gente coloca na hora. O jambu é que faz tremer! E tem que tomar quente, fazer suar para mandar embora as coisas ruins do corpo”.

Enquanto ela me explicava, foi preparando meu Tacacá: cesta de palha, cuia, três conchas cheias, um punhado generoso de camarão seco e o jambu. 



 - “Quer goma?”        

- “Claro, a experiência tem que ser completa!” E lá se foi uma colherada do viscoso e transparente amido.




- “Tá. Agora senta aqui e deixa eu tirar uma foto! Tem que mostrar pros seus amigos lá debaixo que se toma direto da cuia.”

No primeiro gole eu me dei conta: aquele era meu verdadeiramente primeiro tacacá! Porque o que faz o tacacá não é só tucupi misturado com seus temperos, mas o saber, as gerações, o afeto, o trabalho, a memória e a cultura que transformam aquele alimento numa entidade essencial, como a matriarca de uma família, para identidade de seu povo.


Depois do último camarão, um abraço naquela querida e mais alguns passos de volta ao hotel sombreados pelas mangueiras...


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Comendo o mundo: os sabores da Colômbia

Olá, olá, minha gente!

A pessoa some por mais de um ano e agora quer voltar como se nada tivesse acontecido? SIM!
Juro que eu tenho uma boa motivação para isso: estou vivenciando minha tão esperada jornada da minha pesquisa do doutorado e estou tempo para refletir sobre os lugares fantásticos, sabores únicos e pessoas singulares que estou conhecendo.


Daí pensei: por que não compartilhar isso aqui?!

Para ninguém pegar o bonde andando, irei voltar aos poucos... Por isso, hoje vou reavivar minha coluna preferida do blog: Comendo o mundo!

Atualmente, meu saldo de viagens é este:




*se você quiser fazer seu mapa, entra aqui ó: http://wherehaveibeen.info/

Ainda é pobrinho, a lista de lugares a conhecer é enorme (Alô, África!), mas  aos poucos vou compartilhando os sabores, receitas e culturas alimentares que tive a oportunidade de conhecer.

Dito isso, vamos ao que interessa: cocina colombiana!

Já tinha um tempão que eu e o digníssimo estavamos namorando a Colômbia. Aproveitamos para fazer uma pré lua de mel no país de Garcia Marquez, em julho de 2015. Além das paisagens, uma coisa despertava muito nossa curiosidade sobre o país: su cocina muy rica! Mas o que dizer da gastronomia de um país rico d mcultura indígena, europeia, negra, latina, árabe, contemplada com a Amazônia, com mar do Caribe, com Mata Atlântica e uma das maiores e mais ricas biodiversidades do planeta? Não poderia se esperar nada menos que uma gastronomia diversa e surpreendente! Olha só a quantidade de bananas, batatas e frutas que a gente encontra num mercadinho de esquina:









A cozinha colombiana não é marcada por técnicas elaboradas e nem ingredientes sofisticados: a base de seus pratos típicos são ingredientes bem comuns à cultura brasileira, tendo a banana, o milho e o feijão como seus principais ingredientes.

Agora, se você acha que eles comem a banana com granola e canela, você está redondamente enganado. Um dos preparos mais comuns encontrados nas mesas colombianas são os Patacones: fatias de plátano (uma espécie de banana, tipo a nossa banana da terra) verde, amassadas (com um soquinho. Daí vem o nome. A fatia da banana amassada com uma pata de elefante), fritas e servidas com sal. É um preparo versátil, servido tanto como acompanhamento, como sozinho para um pestisco. Em San Andrés, brindados com o mar caribeño de sete cores, comemos essas belezinhas com um Cazuela de Caracoles (caçarola de caracóis, em tradução literal).





Este da foto comemos no Restaurante La Bruja, da Rede  de hotéis Decamoron, onde estávamos hospedados. Na ilhota de 27 km² não existem muitas opções de restaurante. Por isso, optamos por ficar no Royal Decameron Los Delfines, o mais novinho da rede, no sistema all inclusive (nada de muito maravilhoso, mas tá valendo), que era composto por mais de 10 restaurantes espalhados pela ilha =). A localização também era ótima, por ficar no centrinho e ainda por ter uma praia particular básica... Ai, que chato!
E além da banana, o que é que a Colômbia tem? No caso da ilha, muitas frutas, além das nossas conhecidas goiaba, melancia, abacaxi, manga, papaia e graviola, eles consomem Lulo (não tem nada parecido aqui, mas tem um sabor agridoce), maracujá doce e tomate doce!
Mais colombiano que os patacones, só as Arepas - uma espécie de tapioca mais grossa feita com farinha de milho (branca ou amarela) feitas na frigideira, na chapa ou na arepeira e que acompanha todos as refeições. Quando recheada, pode ser até uma refeição completa.



Arepeira no centro de Bogotá.

Já em Bogotá, uma cidade surpreendentemente incrível, a oferta gastronômica era bem cotada! Além de restaurantes consagrados (a Colômbia possui 5 restaurantes na lista dos 50 melhores restaurantes da América Latina), a cidade é rica em comida de rua! O que me deixou mais impressionada foram as barraquinhas de frutas espalhadas pelas calles, nas quais são vendidos potinhos de frutas cortadas, principalmente manga verde em tirinhas com sal (que fica parecendo espaguete). As pessoas pegam e saem andando. Isso que é fast food! O governo faz várias campanhas incentivando o consumo de frutas fresca e locais para uma vida mais saudável. Nessa pegada, pode-se encontrar um milho (milhaozão diga-se de passagem) assado na brasa por apenas 2 reais! ¿Chévere, no?


                                   


No centro, tem uma quantidade infinita de carrinhos e restaurantes com comidas tradicionais. Dá pra se jogar!



Saindo das ruas e entrando no circuito dos restaurantes, Bogotá oferece muitas opções em toda a cidade, porém concentra grande parte delas na Zona T: uma região repleta de bares, restaurantes, baladas, shoppings, lojas como Dior, Pronovias e Valentino e hotéis. Lá, turistas e locais se confundem nas ruelas iluminadas e musicais que mais parecem um parque de diversões para quem curte gastronomia e moda. 

Na Zona T, tivemos algumas experiencias bem agradáveis. A primeira delas: o tradicional Andrés carne de Rés. Inspirado na Divina Comédia, de Dante Alighiere, o restaurante tem vários andares que representam desde o inferno até o céu. O lugar é TODO cheio de detalhes, naquele estilo de bagunça arrumada que dá certo (detalhe: a unidade da Zona T é uma franquia, o original fica num bairro afastado e dizem que é SENSA, pois além da boa comida, depois tudo vira uma grande festa!). A pedida lá é uma boa carne. Pedimos um "plancha" com vários tipos de carne, chorizo, arepas, papas, carne porco e carne de frango. Pedimos um suco e uma cerveja. Não muito baratchol - a conta ficou em torno de 150 mil pesos colombianos. Valeu a pena! A comida tava gostosa - a fome deu uma ajudada - e o lugar é realmente incrível e hilário! Tem que ir!



Andando pela rua central da zona, entramos no que parecia uma medina. Um restaurante árabe com uma pegada marroquina e meio libanesa. Resultado? A melhor comida das arábias que já comemos, harmonizada com um chardonnay bem geladinho. Destaque para a linguiça de cordeiro artesanal. No Gyros y Kebab eles tem até um forno a lenha que você pode ficar apreciando os pães pita inflarem enquanto assam. 




Ainda na Zona T, conhecemos uma Cevicheria bem bacaninha chamada  Central Cevicheria. O lugar é bacanérrimo. Tem uma vendinha de produtos peruanos e verduras frescas e peixaria na frente, os drinks são bem gostosos e preço é bem justo. Porém, apesar do peixe ser fresco, eles colocam MUITO milho enlatado no meu ceviche. Nessa hora você para e pensa: Amigo, assim não dá pra te defender.

Na tarde de ir embora, enquanto esperávamos a hora de ir ao aeroporto, conhecemos também uma browneseria, bem gostosinha para tomar um café enquanto você vê a vida passar. Acredita que na Nocciola Brownieseria eles fazem até sushi de brownie? Eu vou morrer e não vou ver de tudo que esse raio gourmetizador é capaz!

Saindo da Zona T, conhecemos dois restaurantes que fizeram valer a viagem e que deram motivos para voltar: Leo Cocina y Cava e Harry Sasson.

Leo Cocina y Cava fica perto do centro da cidade. Fica numa casa antiguinha branca com uma imponente porta de madeira. Da porta para dentro, nada de antiguidade: o restô é todo moderninho, com intervenções artísticas em ferro e uma adega aberta em toda lateral do espaço. Simples e chique, assim como se espera de um restaurante que integra a lista dos 50 melhores restaurantes da América Latina (ele ocupa a 49ª posição). A chef Leo é uma daquelas mulheres que veste a camisa: além do restaurante, conhecido por utilizar produtos da biodiversidade colombiana, ela tem uma fundação de pesquisa da cultura e produtos de seu país. Demais, né? Por isso, não tivemos muitas dúvidas na hora de escolher: pedimos os dois menus degustação, cada um de 10 passos, que a casa oferece - o clássico e o sazonal - harmonizados com vinhos e licores feitos por uma cooperativa de mulheres da amazônia colombiana (por sinal, acho que não harmonizaram legal, mas o que vale é a valorização da biodiversidade e de suas guardiãs, então tá valendo). O valor de cada menu era de 200 mil pesos colombianos. Vale a experiencia, pois é como fazer um tour de sabores por todos os territórios, biomas e matas da Colômbia. É emocionante! Ah, não esqueça de fazer reserva.

Uma amostrinha do que foram os menus:














Por fim, o nosso coroado: Harry Sasson. Pensa num lugar fino! Teto completamente de vidro para você admirar o céu enquanto você toma uma tacinha de espumante. Mas o que arrebatou meu coração não foi o tratamento querido dos garçons, nem da pegada artística do local, mas sim a Cola de Langosta braseada com mantequilla . Rapaz, sério, a textura e o sabor daquela lagosta ficaram no coração! O Harry também integra a lista dos 50 melhores restaurantes da América Latina, ocupando a 43ª posição.





E aí, vale ou não vale fazer uma boquinha na Colômbia? Eu, com certeza, fiquei com gostinho de quero mais!

Besotes,


T.