quinta-feira, 13 de março de 2014

Think about eat: Os enlaces da identidade alimentar


Há algum tempo, tive a grata surpresa de receber como inspiração divina o artigo da minha querida e inteligentíssima amiga Janine Colaço. Intitulado "O ENCONTRO ENTRE O TRADICIONAL E O NOVO: autenticidade e restaurantes na cidade de São Paulo", Janine traça um panorama, a partir do olhar dos donos de restaurantes tradicionais de São Paulo com mais de 50 anos de existência, entre a tradicional comida italiana, de raiz, imigrante, passada de geração em geração e encapsulada por elementos passados mergulhada na modernidade e os novos e diversos restaurantes que "re"inventaram e "re"leram a cozinha italiana oferecendo novas experiencias, em ambientes modernos, devidamente climatizados,iluminados e planejados. 

Pode-se dizer, em outras palavras, que o panorama traçado está entre a tradição e a tradição inventada, muito bem posta por Hobsbawm, na qual busca-se imitar algo já legitimado e consolidado que rompeu as barreiras do tempo para enfrentar um novo contexto, como a globalização,para firmar sua identidade, se referenciando em algo passado numa continuidade artificial. A situação mostra-se, então, um pouco mais complexa, pois não se trata apenas do paradoxo de autenticidade entre um restaurante antigo em relação a um restaurante novo, mas sim, se refere a construção das identidades em um ambiente globalizado, onde as tradições são reinventadas em qualquer lugar e facilmente reproduzidas por indústrias chinesas e distribuídas no ebay ou no festival de sanduíches do mundo do Mc Donalds.


Em tempos de "consumo, logo existo", o comedor industrial, passivo e acrítico, proposto por Berry, que não sabe comer é um ato agrícola e não sabe mais as conexões entre alimentação e a terra, não se preocupa se é a nonna que está mexendo a polenta no tacho ou se a farinha de milho foi produzida, embalada e distribuída por uma grande multinacional agroalimentar. Ele se preocupa em consumir (de preferência bem rápido e bonito para postar no instagram). Giddens já alertara para este fato, quando em As Consequências da Modernidade, dizia que nos encontramos "apanhados num universo de eventos que não compreendemos plenamente, e que parecem em grande parte estar fora de nosso controle", onde as conseqüências da modernidade estão nos alcançado e se radicalizando, materializando as descontinuidades que nos desvencilharam das tradicionais formas de ordem social e nos trouxeram ao período moderno. As interconexões sociais em torno do globo, a desconstrução das características íntimas e pessoais do cotidiano para adaptação ao moderno e a desconstrução do evolucionismo social para conceber que a história moderna não será constituída de uma unidade, mas sim de um caos infinito de histórias, são algumas das considerações que Giddens faz em relação a esse mundo moderno. E como essa conversa chega a cozinha? Simples. Como bem diz Janine, a cozinha é um sistema e um processo "onde o funcionamento prático expõe relações sociais".

E dessas relações sociais emergem os símbolos e os processos sociais que definem status, questões de gênero, distinções entre indivíduos e classes. Disso, temos também, a diferenciação de funções, saberes e especialidades. Assim, associando o boom gastronômico atual com a questão das tradições inventadas na modernidade, os saberes tácitos das nonnas, dos pais nos almoços de domingo e dos sertanejos nos interiores do país estão sendo, paulatinamente, substituídos por chefs com suas dólmãs em cozinhas-show ou em programas de televisão, romantizando o cotidiano de tradições hereditárias e se valendo de hábitos muitas vezes marginalizados, substituindo "a confiança de relações de proximidade familiar e de vizinhança, para uma confiança baseada na desincorporação e conhecimento técnico”.

A minha preocupação em torno disso, enquanto gastrônoma, é se os chefs estão matando a tradição ou a estão reinventando com tantas firulas que fazem seus guardiões se retorcerem em seus túmulos?? Janine traz a fala de uma das nonnas que teve sua receita de pão de linguiça roubada por seu padeiro e vendida para uma pizzaria com várias filiais. Segundo ela, sua grande indignição se deve ao desrespeito s as subjetividades intrinsecas da receita, pois "a reprodução da receita é feita sem qualquer sentido familiar ou tradicional". Parece, então, que existem chefs ou grandes empresários do setor de restaurantes que tem tornando o valor da emoção e da tradição uma mera moeda de troca para promover seus restaurantes! Será que está se criando uma cultura de chefs zumbis que fazem comida sem alma e sentido? Será que até a mais ínfima cozinha de casa se converteu em uma commodity em potencial? Mercantilizaram-se os sabores e empobreceram a essência dos saberes ancestrais.





                                   
Na busca de inovar, reinventar e contemplar toda a diversidade imposta pela globalização, acaba-se por suprimir a identidade verdadeira do prato. Pois, em meio a essa miscelânea cultural, está se justificando a mistura de sushi com farofa porque, afinal “estamos em um mundo globalizado” que necessita inovar e se reinventar as tradições a qualquer custo e técnica para poder se manter ativo no mercado. Não digo que devemos estar estáticos, pois a tradição precisa beber na fonte da contemporaneidade para perpetuar na modernidade. Devemos, claro, trocar as folhas, mas a raiz...Ah! Está deve permanecer radicada nas entranhas "da panela velha que faz comida boa".

A nova gastronomia contemporânea não foi constituída no vácuo do presente. Ela é a consequência de uma construção histórica que começou lá atrás quando o proto homem percebeu que poderia transformar seus alimentos a partir do contato com o fogo. Portanto, a nova cozinha, assim como qualquer outra ciência, precisa lembrar de suas origens e saber reconhecer a autenticidade das tradições e não só valorizar o "reinventado". Disso tudo, fica a questão: O autentico, então, é algo simplesmente inventivo ou é algo construído, legitimado pela história e inabalável frente as inovações e diversidades identitárias de nossa época? Não pretendo responder a essas retóricas, porém, gostaria de trazer a reflexão de que a comida tem sua identidade e história e nós, apaixonados pela gastronomia, precisamos deter os meios de preservar suas particularidades. Do contrário, estaremos evaporando as identidades gastronômicas mais rápido do que as espumas de alguns “magos” da cozinha contemporânea...

*Think about eat é uma coluna semanal, que expõe temas da gastronomia que devem ser trazidos para discussão aprofundada e pensada.


sábado, 8 de março de 2014

De volta... e com a macarrão de rúcula com tomatinho e ricota!

Dizem por ai que o tempo cura tudo.
Que o tempo é o melhor remédio.
Que o tempo faz tudo se transmutar.
Que o tempo trata de por tudo em seu lugar.
Eu vejo isso de uma maneira diferente. Eu acredito que se deixarmos as coisas sem cuidado, através desse mesmo tempo que cura tudo, colhe-se um efeito corrosivo. Enferrujam-se os ferros. Apodrecem-se as madeiras. Desbotam-se as cores. Calam-se as ideias.
E eu me descuidei deste meu pequeno e lindo projeto por um tempo... Mas antes que ele se deteriora-se, eu resolvi retomá-lo e continuar alimentando o sistema gastrocentrico!

Para tanto, vou fazer a alegria geral da nação que curtiu muuuuito  a minha gloriosa massa da dieta que postei no meu insta (@tainazaneti).
Mas essa massa tem uma história. Tudo começa pelo fato de que, como todo carnaval tem seu fim, o meu chegou antes mesmo do carnaval. Tive consulta com minha nutricionista, na quinta, antes do carnaval. E ela me deu AQUELE puxão de orelha. Eu tinha duas opções: chorar pelo leite condensado derramado ou me superar e voltar a fazer comidas leves e gostosas. Dignamente, optei pela segunda opção. Aproveitei a ilustre companhia do meu excelentíssimo e fomos para a feirinha orgânica da redenção que sempre nos brinda aos sábados, em Porto Alegre. Pechinchei todos os tipos de frutas, legumes e verduras possiveis e fui pra casa feliz da vida transforma-los em comidinhas. Teve couve tailandesa, legumes assados na churrasqueira, tarte tatin de mini-cebolinha, salada grega, moqueca.... Enfim, um festa de sabores carnavalescos.

Eis que na quinta, o mundo real já chamava de volta, as hortaliças estavam acabando e eu cheguei da academia CHEIA de fome.
Olhei para a gaveta de verduras peguei tudo que tinha: tomatinho, rúcola, alho, cebolinha.
Olhei nas pratileiras de cima e vi a ricota todo especial que meu pai tinha feito pra mim na fazenda.
Abri a dispensa, vi meu macarrão de arroz e não pensei duas vezes: isso vai dar samba! Pra agregar um pouco mais de valor, colhi umas folhinhas de manjericão na minha horta. (horta em casa é statis! hahaha!)
Coloquei um panela grande com agua para ferver e, ao som da minha musa Janis, piquei todos os ingredientes.
Numa frigideira grande, coloquei uma colher de aceto balsâmico, deixei reduzir um pouco, coloquei o alho. Quando ele já estava caramelizando, coloquei o tomatinho. dei uma leve refogada e reservei. Enquanto isso, minha massa já estava cozinhando. Quando ela ficou al dente, a transferir para a frigideira, misturei com meu refogado, agreguei a ricota, o manjericão e a rúcola e tcharam: nasce uma estrela!
A primeira garfada foi uma surpresa: o agridoce do aceto, com a maciez do tomatinho e o picante da rúcola e do alho fizeram eu ter certeza de que eu tinha feito a escolha certa!

Foto: Delicia de dieta! Macarrão de arroz, rúcula, ricota, manjerona, alho e tomatinho!

Ingredientes

8 talos inteiros de rúcola picados
10 folhinhas de manjericão
2 colheres de sopa de ricota fresca
10 tomatinhos cortados em 4
100g de macarrão de arroz cozido
1 colher de sopa de aceto balsâmico
2 dentes de alho
3 cebolinhas picadinhas

Preparo

Em uma panela grande, coloque aga para ferver para cozinhar o macarrão. Em uma frigideira grande, coloque o aceto balsâmico. Espere reduzir um pouco e acrescente o alho. Quando estiver caramelizado, coloque os tomatinhos. Dê uma leve refogada e reserve. Quando a agua do macarrão ferver, coloque uma colher de sopa de sal na agua e agregue o macarrão. Cozinhe até que ela fique al dente. Transfira o macarrão para a frigeideira. Agregue os demais ingredientes e saltei-os até que tdos os ingredientes estão misturados. Pronto! Agora é só comer e ser feliz!                                

É isso, minha gente! Testem a receita e espero revê-los em breve!

Beijos mil e bom final de semana!